sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Segundo capitulo...


DOIS

Ψ

TRÊS VELHAS SENHORAS

TRICOTAM AS MEIAS DA MORTE

 

Eu estava acostumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas, passavam depressa. Aquela alucinação vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia estar me pregando algum tipo de peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de que a Sra. Kerr Uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão — era nossa professora de iniciação a álgebra desde o Natal.

De vez em quando eu soltava uma referencia à Sra. Doods para cima de alguém, só para ver se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.

Acabei quase acreditando neles: a Sra. Doods nunca tinha existido.

Quase.

Mas Grover não conseguiu me enganar. Quando eu mencionava o nome Doods ele excitava, depois alegava que não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.

Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.

Eu não tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, à noite visões da Sra. Doods com garras e asas de couro me faziam acordar suando frio.

O tempo maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de raios arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias depois, a maior a jamais visto nas praias de São Paulo tocou as pistas a apenas quarenta quilômetros da academia Yancy. Um dos eventos correntes que aprendemos na aula de estudos sociais era o número inusitado de pequenos aviões que caíram em súbitos vendavais no Atlântico naquele ano.

Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram de D para F. Entrei em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto para fora da sala e tinha de ficar no corredor em quase todas as aulas.

Finalmente, quando nosso professor de inglês, o Sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima vez por que eu tinha tanta preguiça de estudar para as provas de ortografia, eu explodi. Chamei-o de velho dipsomaníaco. Não sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem.

O diretor mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não seria convidado a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte.

Ótimo disse a mim mesmo. Simplesmente ótimo.

Eu estava com saudades de casa.

Queria ficar com minha mãe no nosso pequeno apartamento no Jardim Paulista, mesmo que tivesse de frequentar uma escola pública e aturar meu padrasto detestável e seus jogos de pôquer estúpidos.

E no entanto... Havia coisas na Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha janela para os bosques, o rio Tiete a distancia, o cheiro das árvores. Sentiria falta de Grover, que tinha sido um bom amigo, mesmo com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao próximo ano sem mim.

Também sentiria falta da aula de latim — os dias malucos de torneio do Sr. Brunner falara, e sua confiança em que eu poderia me sair bem.

Quando a semana de exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual eu estudava. Não tinha me esquecido do que o Sr. Brunner falara, sobre essa matéria ser questão de vida ou morte para mim. Não sabia muito bem por que, mas começara a acreditar nele.

Na noite anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega outro lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora da página, dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate. Não havia jeito de eu me lembrar da diferença de Quíron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar aqueles verbos latinos? Nem pensar.

Fiquei indo de um lado para o outro no quarto com a sensação de que havia formigas andando por dentro da minha camisa.

Lembrei a expressão séria do Sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.

Respirei fundo. Peguei o livro de mitologia.

Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o Sr. Brunner, quem sabe ele me daria algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo grande F que ia tirar na prova. Não queria sair da Academia Yancy deixando-o pensar que não tinha me esforçado.

Desci a escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas a porta do Sr. Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso do corredor.

Eu estava a três passos da maçaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala. O Sr. Brunner tinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dúvida, era a de Grover disse: “preocupado com Percy, senhor.”

Eu gelei.

Normalmente não sou bisbilhoteiro, mas desfio alguém a não tentar ouvir quando seu melhor amigo está falando sobre você com um adulto.

 Cheguei um pouco mais perto.

— ...sozinho nesse verão — Grover estava dizendo. — Quer dizer, uma Benevolente na escola! Agora que sabemos com certeza, e eles também sabem...

— Só vamos piorar as coisas se o apressarmos — disse o Sr. Brunner. — Precisamos que o menino amadureça mais.

— Mas ele pode não ter tempo. O prazo final do solstício de verão...

— Terá de ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorância enquanto ainda pode.

— Senhor ele a viu...

— Imaginação dele — insistiu o Sr. Brunner. — A Névoa sobre os alunos e a equipe será suficiente para convencê-lo disso.

— Senhor, eu... eu não posso fracassar nas minhas tarefas de novo. — Eu deveria tê-la visto como ela era. Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo até o próximo outono...

O livro de mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.

O Sr. Brunner silenciou.

Com o coração disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor.

Uma sombra deslizou pelo vidro iluminado da porta do Sr. Brunner, a sombra de algo muito mais alto do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa parecida com o arco de um arqueiro.

Abri a porta mais próxima e me esgueirei para dentro.

Alguns segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop, como blocos de madeira abafados, depois um som como o de um animal farejando bem na frente da minha porta. Um grande vulto escuro parou diante do vidro e depois seguiu adiante.

Uma gota de suor escorreu por meu pescoço.

Em algum lugar do corredor, o Sr. Brunner falou.

— Nada — murmurou ele. — Meus nervos não andam muito bons desde o solstício de inverno.

— Nem os meus — disse Grover. — Mas eu podia ter jurado...

— Volte para o dormitório — disse-lhe o Sr. Brunner. — Você tem um longo dia de provas amanhã.

— Nem me lembre.

As luzes se apagaram na sala do Sr. Brunner.

Aguardei no escuro pelo que me pareceu uma eternidade.

Por fim, me esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitório.

Grover estava deitado na cama, estudando as anotações para a proa de latim como se estivesse estado lá a noite inteira.

— Ei! — disse ele, com olhar de sono. — Vai estar preparado para a prova?

Não respondi.

— Esta com uma cara horrível. — Ele franziu a testa. — Tudo bem?

— Só estou cansado.

Virei-me para que ele não pudesse perceber minha expressão e comecei a me preparar para dormir.

Não entendi o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo.

Mas uma coisa estava clara: Grover e o Sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas. Achavam que eu corria algum tipo de perigo.

Na tarde seguinte, quando estava saindo da prova de latim de três horas, atordoado com todos os nomes gregos e romanos que tinha escrito errado, o Sr. Brunner me chamou de volta.

Por um momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na noite anterior, mas não parecia ser esse o problema.

— Percy — disse ele. — Não fique desanimado por deixar Yancy. É... é para o seu bem.

Seu tom era gentil, mas ainda assim as palavras me deixaram sem graça. Embora ele estivesse falando baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou um sorriso falso e, sarcasticamente, fez pequenos movimentos de beijo com lábios.

Eu murmurei:

— Está bem, senhor.

— Quer dizer... — O Sr. Brunner andou com a cadeira para trás e para frente, como se não tivesse certeza do que falar. — Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão de tempo.

Meus olhos ardiam.

Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz. Depois de falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava destinado a ser expulso.

— Certo —disse eu, tremendo.

— não, não — disse o Sr. Brunner. — Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer... é que você não é normal, Percy. Não é nada ser...

— Obrigado — soltei. — Muito obrigado, senhor, por me lembrar.

— Percy...

Mas eu já tinha ido.

No último dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala.

Os outros garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as férias. Um deles ia fazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro de um mês pelo Caribe. Tinha um que ia para a Disney. Eram delinquentes juvenis como eu, mas delinquentes juvenis ricos. Os papais eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era uma joão-ninguém, de uma família de joões-ninguém.

Eles me perguntarão o que ia fazer no verão, e eu disse que voltaria para a cidade.

O que não lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de verão passeando com cachorros ou vendendo assinaturas de revistas, e passar o tempo livre pensando em onde eu iria estudar no outono.

— Ah — disse um dos garotos. — Legal.

Eles voltaram à conversa como se eu não existisse.

A única pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as coisas aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhatan no mesmo ônibus que eu, então lá estávamos nós, juntos outra vez, indo para a cidade.

Durante toda a viagem de ônibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os outros passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando saíamos de Yancy, como se esperasse que algo de ruim fosse acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo de que o provocassem. Mas não havia ninguém para fazer isso no ônibus.

Finalmente, não pude mais aguentar.

— Procurando Benevolentes?

Grover quase pulou do assento.

— O que... o que você quer dizer?

Confessei ter ouvido a conversa dele com o Sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.

O olho de Grover estremeceu.

— Quanto você ouviu?

— Ah... não muito. O que é o prazo final do solstício de verão?

Ele se esquivou.

— Olhe Percy... Eu só estava preocupado com você, entende? Quer dizer, tendo alucinações com professoras de matemática demoníacas...

— Grover...

— E eu estava dizendo ao Sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou coisa assim, porque não havia nenhuma pessoa chamada Sra. Doods e...

— Grover, você mente muito mal mesmo.

As orelhas ficaram cor-de-rosa.

Do bolso da camisa, ele pescou um cartão de visitas encardido.

— Pegue isto, certo? Para o caso de você precisar de mim neste verão.

O cartão tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos disléxicos, mas por fim consegui identificar alguma coisa como:

Grover Underwood

Guardião

Colina Meio-Sangue

Long Island, New York

(800) 009-0009

— O que é Colina Meio…

— Não fale alto! — ganiu. — É meu, ah... endereço de verão.

Meu coração desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a família dele poderia ser tão rica quanto as dos outros em Yancy.

— Certo — falei, mal-humorado. — Tá, se eu quiser fazer uma visita à sua mansão.

Ele assentiu.

— Ou... se você precisar de mim.

— Por que eu precisaria de você?

Saiu mais rude do que eu pretendia.

Grover ficou com a cara toda vermelha.

— Olhe, Percy, a verdade é que eu... eu tenho, de certo modo, que proteger você.

Olhei fixamente para ele.

Durante o ano inteiro eu me meti em brigas para manter os valentões longe dele.

Perdi o sono temendo que, sem mim, ele fosse apanhar ano que vem. E ali estava Grover agindo como se fosse ele a me defender.

— Grover —disse eu —, do que exatamente você esta me protegendo?

Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo dos nossos pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o ônibus com dificuldade até o acostamento.

Depois de alguns minutos fazendo alguns sons metálicos no compartimento do motor o motorista anunciou que teríamos de descer. Grover e eu saímos em fila com todos os outros.

Estávamos em um trecho de estrada rural — um lugar que a gente nem notaria se não tivesse enguiçado lá. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos e lixo jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente.

As coisas à venda pareciam realmente boas: caixas transbordando de cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com pés em formas de patas, cheia de gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço à sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.

Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de suéteres, mas, obviamente, eram meias. A senhora da direita tricotava uma delas. A da esquerda tricotava a outra. A do meio segurava uma enorme cesta de lã azul brilhante.

As três mulheres pareciam muito velhas, com o rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com lenço branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.

A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim.

Encarei Grover para comentar isso e vi que seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia.

—Grover? — disse eu. — Ei, cara...

— Diga que elas não estão olhando para você. Estão, não é?

— Estão. Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?

— Não tem graça Percy. Não tem graça nenhuma.

A velha do meio pegou uma tesoura imensa — dourada e prateada, de lâminas longas, como uma tosquiadeira. Ouvi Grover tomar fôlego.

— Vamos entrar no ônibus — ele me disse— Venha.

— O quê? — disse eu— Lá dentro esta fazendo quinhentos graus.

— Venha! — Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.

Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim, a do meio cortou o fio de lã e posso jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas de transito. As duas amigas dela enrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria aquilo— o Pé Grande ou o Godzila.

Na traseira do ônibus, o motorista arrancou um grande pedaço de metal fumegante do compartimento do motor. o ônibus estremeceu e o motor voltou a vida, roncando.

Os passageiros aplaudiram.

— Tudo em ordem! — gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com o chapéu. — Todo o mundo para dentro!

Quando já estávamos a caminho, comecei a me sentir febril, como se tivesse pego uma gripe.

Grover não parecia muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes.

— Grover?

— Sim?

— O que me diz?

Ele enxugou a testa com a manga da camisa.

— Percy, o que você viu lá atrás, na banca de frutas?

— Você quer dizer, aquelas velhas? O que a com elas, cara? Elas não são como... a Sra. Doods. Grover disse:

— Só me diga o que você viu.

— A do meio pegou a tesoura e cortou o fio.

Ele fechou os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal da cruz, mas não era isso. Era outra coisa, algo um tanto... mais antigo.

Ele disse:

— Você a viu cortar o fio.

— Sim. E dai? — Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.

— Isso não esta acontecendo — murmurou Grover. Ele começou a morder o dedão. — Não quero que seja como na última vez.

  — Que última vez?

  — Sempre o sétimo ano. Eles nunca passam do sétimo.

— Grover — disse eu, porque ele estava realmente começando a me assustar —, do que você esta falando?

— Deixe que eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.

Aquele pareceu um pedido estranho, mas prometi.

— É uma superstição ou algo assim? — perguntei.

Nenhuma resposta.

— Grover... aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?

Ele olhou para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo de flores que eu gostaria mais de ter em meu caixão.

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