Um
Ψ
SEM QUERER, TRANSFORMO
EM PÓ MINHA PROFESSORA
DE INICIAÇÃO A ÁLGEBRA
Olhe eu não queria ser um meio
sangue.
Se você
esta lendo isto porque acha que pode ser um, meu conselho é o seguinte: feche
este livro agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe
contou sobre seu nascimento, e tente levar uma vida normal.
Ser um meio-sangue é perigoso. É assustador. Na
maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso e detestável.
Se você
é uma criança normal, que está lendo isso porque
acha que é
ficção,
ótimo. Continue lendo.
Eu o invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu.
Mas, se você se reconhecer nestas
paginas — se sentir alguma
coisa emocionante lá
dentro —
pare de ler imediatamente. Você
pode ser um de nós.
E, uma vez que fica sabendo disso, é apenas uma questão de tempo antes que eles também sintam isso, e
venham atrás
de você.
Não
diga que eu não
avisei.
Meu nome é Percy Jackson.
Tenho doze anos de idade. Até alguns meses atrás, era aluno da
academia Yancy, uma escola para crianças problemáticas no estado de
interior do estado de São Paulo.
Se eu sou uma criança problemática?
Sim. Pode-se dizer isso.
Eu poderia partir de qualquer ponto da minha vida
curta e infeliz para prová-lo,
mas as coisas começaram
a ir realmente mal no último
mês de outubro, quando
nossa turma do sexto ano fez uma excursão a Manhatan — vinte
e oito crianças
alucinadas e dois professores em um ônibus escolar amarelo
indo para o Museum of Art, a fim de observar velharias gregas e romanas.
Eu sei, parece tortura. A maior parte das excursões da Yancy era
mesmo.
Mas o Sr. Brunner, nosso professor de latim, estava
guiando essa excursão,
assim eu tinha esperanças.
O Sr. Brunner era um
sujeito de meia-idade em uma cadeira de rodas motorizada. Tinha o cabelo ralo,
uma barba desalinhada e usava um casaco surrado de tweed que sempre cheirava café. Talvez você não o achasse legal,
mas ele contava histórias e piadas e nos deixava fazer brincadeiras em sala.
Também tinha uma impressionante coleção de armaduras e armas romanas, portanto
era o único professor cuja aula não me fazia dormir.
Eu esperava que desse
tudo certo na excursão. Pelo menos tinha esperanças de não me meter em encrenca
dessa vez.
Cara, como eu estava
errado.
Entenda: coisas ruins
me acontecem em excursões escolares. Como na minha escola da quinta série,
quando fomos para
São Pedro da Aldeia, e eu tive aquele acidente com um canhão do Século XVI. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro que fui
expulso do mesmo jeito.
E antes disso, na
escola da quarta série, quando fomos um passeio pelo aquário de São Paulo na
parte dos tubarões, e eu de alguma forma, acionei a alavanca errada no
passadiço e nossa turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, já dá para você ter uma
ideia.
Nessa viagem, eu
estava determinado a ser bonzinho.
Ao longo de todo o
caminho para a cidade aguentei Nancy Bobofit, aquela cleptomaníaca ruiva e
sardenta, acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaços de
sanduíche de manteiga de amendoim com ketchup.
Grover era um alvo
fácil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido de
ano muitas vezes, porque era o único no sétimo ano que tinha espinhas e uma
barba rala começando a nascer no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha
um atestado que o dispensava da Educação Física pelo resto da vida, porque
tinha algum tipo de doença muscular nas pernas. Andava de um jeito engraçado,
como se cada passo doesse, mas não se deixe enganar por isso. Você precisa
vê-lo correr quando era enchilada na
cantina.
De qualquer modo,
Nancy Bobofit estava jogando bolinhas de sanduíche que grudavam no cabelo
castanho cacheado dele, e ela sabia que eu não podia revidar, porque já estava
sendo
observado, sob o
risco de ser expulso. O diretor me ameaçara de morte com uma suspenção “na
escola” (ou seja, sem poder assistir ás aulas, mas tendo de comparecer á escola
e ficar trancado numa sala fazendo tarefas de casa) caso alguma coisa ruim,
embaraçosa ou até moderadamente divertida acontecesse durante a excursão.
— Eu vou matá-la — murmurei.
Grover tentou me
acalmar.
— Está tudo bem. Gosto de manteiga de amendoim.
Ele se esquivou de
outro pedaço do lanche de Nancy.
— Agora chega. — Comecei
a levantar, mas Grover me puxou de volta para o assento.
— Você já está sendo observado — ele me lembrou. — Sabe que
será culpado se acontecer alguma coisa.
Quando me lembro
daquilo, preferiria ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspenção na escola
não teria sido nada em comparação com a encrenca em que eu estava prestes a me
meter.
O Sr. Brunner guiou o
passeio pelo museu.
Ele foi na frente em
sua cadeira de rodas, conduzindo-nos pelas grandes galerias cheias de ecos,
passando por estátuas de mármore e caixas de vidro repletas de cerâmica muito
velha preta e laranja.
Ele nos reuniu em
volta de uma coluna de pedra com quatro metros de altura e uma grande esfinge
no topo, e começou a explicar que aquilo era um marco tumular, uma estela, feita para uma menina mais ou
menos da nossa idade. Contou-nos sobre as inscrições laterais. Estava tentando
ouvir o que ele tinha a dizer, porque era um pouco interessante, mas todos ao
meu redor estavam falando, e cada vez que eu dizia para calarem a boca, a outra
professora que nos acompanhava, a Sra. Dodds, me olhava de cara feia.
A Sra. Dodds era
aquela professorinha de matemática da Geórgia que sempre usava um casaco de
couro preto, apesar de ter cinquenta anos de idade. Parecia má o bastante para
entrar com uma moto Harley bem dentro do seu armário. Tinha chegado em Yancy no
meio do ano, quando nossa última professora de matemática teve um colapso
nervoso.
Desde o primeiro dia,
a Sra. Dodds adoro Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido gerado pelo
diabo. Ela me apontava o dedo torto e dizia: “Agora meu bem”, com a maior
doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que
ela me fez apagar as respostas em antigos livros de exercícios de matemática
até meia-noite, disse a Grover que achava que a Sra. Dodds não era gente. Ele olhou
para mim, muito sério, e disse:
— Você está certíssimo.
O Sr. Brunner
continuou falando sobre arte funerária grega.
Finalmente, Nancy
Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado na estela, e eu me
virei e disse:
— Quer calar a boca?
Saiu mais alto do que
eu pretendia.
O grupo inteiro deu
risada menos duas garotas que eu nunca avia visto na vida. O Sr. Brunner
interrompeu sua história.
— Sr. Jackson — disse
ele — fez algum comentário?
Meu rosto estava
completamente vermelho. Eu disse:
— Não senhor.
O Sr. Brunner apontou
uma das figuras da estela.
— Talvez possa nos dizer o que esta figura representa.
Olhei para a imagem
entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
— É Cronos comendo os filhos, certo?
— Sim — disse o Sr.
Brunner, e obviamente não estava satisfeito. —E ele fez isso por que...
— Bem... — eu quebrei a cabeça para me lembrar. —Cronos era o deus-rei e...
— Rei? —
perguntou o Sr. Brunner.
— Titã — eu me
corrigi. — E... ele
não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu,
certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer
no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, enganou o pai, Cronos, e o fez
vomitar seus irmãos e irmãs...
— Eca! — disse
uma das meninas atrás de mim.
—...e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs — continuei —, e os deuses venceram.
Algumas risadinhas do
grupo.
Atrás de mim, Nancy
Bobofit murmurou para uma amiga:
— Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar nas
nossas entrevistas de emprego: “Por favor explique por que Cronos comeu os
filhos.”
— E por que, Sr. Jackson — disse
senhor Brunner —,
parafraseando a excelente pergunta da Srta. Bobofit, isso importa na vida real?
— Se ferrou —
murmurou Grover.
—Cale a boca — chiou
Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
Pelo menos Nancy
também foi enquadrada. O Sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo de
errado. Tinha ouvidos de radar.
Pensei na pergunta
dele e encolhi os ombros.
— Não sei, senhor.
— Entendo. — O Sr. Brunner
pareceu desapontado. — Bem,
meio ponto, Sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda
e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo
deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estomago do
titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortaram-no em pedaços com sua própria
foice e espalharam o resto no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E
com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Doods, quer nos levar de
volta para fora?
A turma foi retirada,
as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo
como bobões.
Grover e eu estávamos
prestes a segui-los quando o Sr. Brunner disse:
— Sr. Jackson.
Eu sabia o que vinha
a seguir.
Disse a Grover para
ir andando. Então me voltei para o professor.
— Senhor?
O Sr. Brunner tinha
aquele olhar que não deixa a gente ir embora — olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter
visto de tudo.
— Você precisa aprender a responder à minha pergunta — disse ele.
— Sobre os titãs?
— Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
— Ah.
— O que você aprende comigo — disse ele — é de
importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você só aceito o
melhor, Percy Jackson.
Eu queria ficar
zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
Quero dizer, era
legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava “Olé!”
e nos desafiava, ponta de espada contra giz, a correr para o quadro-negro e
citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e
que deuses cultuavam. Mas o Sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto
todos os outros a despeito do fato que eu tenho dislexia e transtorno do
déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de c-. Não — ele esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu
fosse o melhor. E eu simplesmente não
podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.
Murmurei alguma coisa
sobre me esforçar mais, enquanto o Sr. Brunner lançava u olhar longo e triste
para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
Ele me disse para
sair e comer meu lanche.
Grover estava falando
com aquelas duas meninas para mim eram bonitas, quando me viram se despediram e
saíram andando.
A turma se reuniu nos
degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres
na Avenida Tira Dentes.
Acima de nós, uma
imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já
tinha visto sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou
qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de São Paulo estava
esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêndios nas
florestas causadas por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão
chegando.
Ninguém mais pareceu
notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy
Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a Sra.
Doods não via nada.
Grover e eu nos
sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos
isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela
escola — a escola para esquisitões lesados que não
davam certo em nenhum outro lugar.
— Detenção? —
perguntou Grover.
— Não — disse
eu. — Não do Brunner. Eu só gostaria que ele às
vezes me dessem um tempo. Quer dizer não sou um gênio.
Grover não disse nada
por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum comentário
filosófico profundo para me fazer sentir melhor ele disse:
— Posso comer a sua maçã?
Eu não estava com
muito apetite, então dei pra ele. Observei os táxis descendo a avenida e pensei
no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos
sentados. Eu não a via desde julho. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir
para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente em me ver, mas também ficaria
desapontada . Imediatamente de volta para a Yancy e me lembraria de que preciso
me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que,
provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o
olhar triste que ele me lançaria.
O Sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na
base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um
guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo – a parecer
uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a
desembrulhar meu sanduiche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as
amigas feiosas imagino que tivesse se cansado de roubar aos turistas.
— Aleijado quem eram aquelas duas coitadas que estavam falando com você,
disse Nancy eu não podia culpa-la também estava curioso. Grover não teve tempo
de responder — Nancy
deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
— Oops — Ela
arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram
alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de
Cheetos liquido.
Tentei ficar calmo. O
orientador da escola me dissera um milhão de vezes : “conte até dez, controle
seu gênio”. Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos
meus ouvidos.
Não me lembro de ter
tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no
chafariz berrando:
— Percy me empurrou!
A Sra. Doods se
materializou ao nosso lado.
Algumas crianças
estavam sussurrando:
— Você viu...
— ...A água...
—...parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas
estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se
certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova
na loja de presentes do museu etc. e tal, a Sra. Doods se voltou para mim.
Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo qual
ela esperara o semestre inteiro:
— Agora meu bem...
— Eu sei —
resmunguei — Um mês
apagando livros de exercícios. Não foi a coisa certa para dizer.
— Venha comigo — disse a Sra.
Doods.
— Espere! — guinchou
Grover — Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele
perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de
medo da Sra. Doods.
Ela lançou um olhar
furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
— Acho que não Sr. Underwood — disse ela.
— Mas...
— Você... vai... ficar ...
aqui.
Grover me olhou
desesperadamente.
— Tudo bem, cara — disse
ele. — Obrigado por tentar.
—Meu bem — latiu a Sra.
Doods para mim. — Agora.
Nancy Bobofit deu um
sorriso falso.
Lancei - lhe meu
melhor olhar de “vou acabar com a sua raça”. Então me virei para enfrentar a Sra.
Doods, mas ela não estava mais lá. Estava postada À Entrada do museu, lá.
Estava postada à entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando
impaciente para mim.
Como ela chegou lá
tão depressa?
Tenho milhares de
momentos desse tipo --- meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou
conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça
desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador
da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era
meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta
certeza.
Fui atrás da Sra.
Doods.
No meio da escadaria,
olhei para Grover lá atrás. Ele estava com aquelas garotas de novo eles
pareciam pálidos, as duas garotas pareciam ser bonitas uma de olhos verdes
aqueles olhos verdes me lembraram de alguém porém eu não soubesse quem eles me
lembravam e cabelos cacheados com alguns fios dourados a outra de cabelos
negros e olhos castanhos penetrantes, os três movendo os olhos entre mim e o Sr.
Brunner, como se pudessem fazer algo para me ajudar, mas o professor estava
absorto em seu romance. A de cabelo cacheado avançou em sua direção com a outra
a seu lado.
Voltei a olhar para
cima. A Sr. Doods desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim
do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela
vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes.
Mas aparentemente não
era esse o plano.
Eu a segui museu
adentro. Quando finalmente alcancei,
estávamos de volta à seção greco-romana.
A não ser por nós, a
galeria estava vazia.
A Sra. Dodds estava postada de braços cruzados
na frente de um grande friso de mármore com a cabeça da Medusa. Ela fazia um ruído
estranho com a garganta, como um rosnado.
Mesmo sem o ruído, eu
teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora,
especialmente a Sra. Doods. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se
quisesse pulverizá-lo...
— Você está
nos criando problemas, meu bem — disse ela.
Fiz o que
era seguro. Disse:
— Sim,
senhora.
Ela ajeitou
os punhos de seu casaco de couro.
— Você
achou mesmo que ia se safar desta?
A expressão
em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa.
Ela é uma
professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar.
Eu disse:
— Eu... eu
vou me esforçar mais, senhora.
Um trovão
sacudiu o edifício.
— Nós não
somos bobos, Percy Jackson — disse a Sra. Doods. — Seria apenas uma questão de
tempo até que descobríssemos. Confesse, e você sentira menos dor.
Eu não
sabia do que ela estava falando.
Tudo o que
pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces
que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara
meu trabalho sobre Santos Dumont na
Internet sem nem ter lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam
me obrigar a ler o livro.
— E então?
— exigiu.
— senhora,
eu não...
— O seu
tempo se esgotou — sibilou ela.
Então algo
muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de
churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se
fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e
enrugada, com asas de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas — e
estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as
coisas ficaram ainda mais esquisitas.
As duas
garotas entraram correndo seguidas de perto pelo Sr. Brunner, que estava na
frente do museu um minuto antes, foram até o vão da porta da galeria, a de
olhos verdes segurando uma caneta.
— Percy! — gritou
a de cabelos lisos.
Assim que
olhei a de olhos verdes jogou a caneta pelo ar.
A Sra.
Doods deu um bote para cima de mim.
Com um
gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu
ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha
mão já não era mais uma caneta. Era uma espada — a espada de bronze que o Sr.
Brunner usava em dias de torneio.
A Sra.
Doods virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
Meus
joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
Ela rosnou:
— Morra meu
bem!
E voou para
cima de mim.
Um terror
absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente:
desferi um golpe com a espada.
A lâmina de
metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse
feita de água: Zaz!
A Sra.
Doods era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia
amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada além do cheiro de enxofre, um grito
estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles
olhos vermelhos incandescente ainda estivessem me olhando.
Eu estava
sozinho.
Havia uma
caneta esferográfica na minha mão.
O Sr.
Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá, além de mim.
Minhas mãos
ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos
mágicos ou coisa assim.
Será que eu
havia imaginado tudo aquilo?
Voltei para
o lado de fora.
Tinha
começado a chover.
Grover
estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em
cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcadada do banho no
chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando me viu disse:
— Espero
que a Sra. Kerr tenha chicoteado o seu traseiro.
— Quem? — respondi.
— Nossa professora Dãã!
Eu pisquei.
Não tínhamos nenhuma professora chamada Sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem
ela estava falando.
Ela
simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
Perguntei a
Grover onde estava a Sra. Doods.
— Quem? —
respondeu ele.
Mas Grover
primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me
gozando.
— Não tem
graça, cara — disse a ele. — Isso é sério.
Um trovão
estourou no alto.
— E quem
eram aquelas duas garotas falando com você? Uma delas me lembram alguém. Queria
mesmo saber quem elas me lembravam.
— Que
garotas? — Respondeu Grover, mas ele evitou meus olhos.
Vi o Sr.
Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se
nunca tivesse se mexido.
Fui até
ele.
Ele ergueu
os olhos, um pouco distraído
— Ah, é a
minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro,
Sr. Jackson.
Entreguei a
caneta ao Sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
— Senhor —
disse eu —, onde está a Sra. Doods?
Ele olhou
para mim com a expressão vazia.
— Quem?
— A outra
professora que nos acompanhava. A Sra. Doods. Professora de iniciação a
álgebra.
Ele franziu
a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
— Percy,
não há nenhuma Sra. Doods nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma Sra.
Doods na Academia Yancy. Está se sentindo bem?
DOIS
Ψ
TRÊS
VELHAS SENHORAS
TRICOTAM
AS MEIAS DA MORTE
Eu estava acostumado a uma ou outra experiência
esquisita, mas normalmente elas, passavam depressa. Aquela alucinação vinte e
quatro horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante
o resto do ano escolar o campus inteiro parecia estar me pregando algum tipo de
peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de
que a Sra. Kerr —Uma loira
alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no
nosso ônibus no fim da excursão — era nossa
professora de iniciação a álgebra desde o Natal.
De vez em
quando eu soltava uma referencia à Sra. Doods para cima de alguém, só para ver
se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.
Acabei
quase acreditando neles: a Sra. Doods nunca tinha existido.
Quase.
Mas Grover
não conseguiu me enganar. Quando eu mencionava o nome Doods ele excitava,
depois alegava que não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.
Alguma
coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia
acontecido no museu.
Eu não
tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, à noite visões da
Sra. Doods com garras e asas de couro me faziam acordar suando frio.
O tempo
maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de
raios arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias depois, a maior a
jamais visto nas praias de São Paulo tocou as pistas a apenas quarenta
quilômetros da academia Yancy. Um dos eventos correntes que aprendemos na aula
de estudos sociais era o número inusitado de pequenos aviões que caíram em
súbitos vendavais no Atlântico naquele ano.
Comecei a
me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram
de D para F. Entrei em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto
para fora da sala e tinha de ficar no corredor em quase todas as aulas.
Finalmente,
quando nosso professor de inglês, o Sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima
vez por que eu tinha tanta preguiça de estudar para as provas de ortografia, eu
explodi. Chamei-o de velho dipsomaníaco. Não sabia direito o que aquilo queria
dizer, mas soou bem.
O diretor
mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não
seria convidado a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte.
Ótimo disse
a mim mesmo. Simplesmente ótimo.
Eu estava
com saudades de casa.
Queria
ficar com minha mãe no nosso pequeno apartamento no Jardim Paulista, mesmo que
tivesse de frequentar uma escola pública e aturar meu padrasto detestável e
seus jogos de pôquer estúpidos.
E no
entanto... Havia coisas na Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha
janela para os bosques, o rio Tiete a distancia, o cheiro das árvores. Sentiria
falta de Grover, que tinha sido um bom amigo, mesmo com seu jeito meio
estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao próximo ano sem mim.
Também
sentiria falta da aula de latim — os dias malucos de torneio do Sr. Brunner
falara, e sua confiança em que eu poderia me sair bem.
Quando a
semana de exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual eu
estudava. Não tinha me esquecido do que o Sr. Brunner falara, sobre essa
matéria ser questão de vida ou morte para mim. Não sabia muito bem por que, mas
começara a acreditar nele.
Na noite
anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega outro
lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora da página,
dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se
estivessem andando de skate. Não havia jeito de eu me lembrar da diferença de
Quíron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar aqueles verbos
latinos? Nem pensar.
Fiquei indo
de um lado para o outro no quarto com a sensação de que havia formigas andando
por dentro da minha camisa.
Lembrei a
expressão séria do Sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Respirei
fundo. Peguei o livro de mitologia.
Eu nunca
havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o Sr. Brunner, quem
sabe ele me daria algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo
grande F que ia tirar na prova. Não queria sair da Academia Yancy deixando-o pensar
que não tinha me esforçado.
Desci a
escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas
a porta do Sr. Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se
estendia ao longo do piso do corredor.
Eu estava a
três passos da maçaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala. O Sr.
Brunner tinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dúvida, era a de
Grover disse: “preocupado com Percy, senhor.”
Eu gelei.
Normalmente
não sou bisbilhoteiro, mas desfio alguém a não tentar ouvir quando seu melhor
amigo está falando sobre você com um adulto.
Cheguei um pouco mais perto.
—
...sozinho nesse verão — Grover estava dizendo. — Quer dizer, uma Benevolente
na escola! Agora que sabemos com
certeza, e eles também sabem...
— Só vamos
piorar as coisas se o apressarmos — disse o Sr. Brunner. — Precisamos que o
menino amadureça mais.
— Mas ele
pode não ter tempo. O prazo final do solstício de verão...
— Terá de
ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorância enquanto ainda
pode.
— Senhor
ele a viu...
—
Imaginação dele — insistiu o Sr. Brunner. — A Névoa sobre os alunos e a equipe
será suficiente para convencê-lo disso.
— Senhor,
eu... eu não posso fracassar nas minhas tarefas de novo. — Eu deveria tê-la
visto como ela era. Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo até o
próximo outono...
O livro de
mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.
O Sr.
Brunner silenciou.
Com o
coração disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor.
Uma sombra
deslizou pelo vidro iluminado da porta do Sr. Brunner, a sombra de algo muito
mais alto do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa
parecida com o arco de um arqueiro.
Abri a
porta mais próxima e me esgueirei para dentro.
Alguns
segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop,
como blocos de madeira abafados, depois um som como o de um animal farejando
bem na frente da minha porta. Um grande vulto escuro parou diante do vidro e
depois seguiu adiante.
Uma gota de
suor escorreu por meu pescoço.
Em algum
lugar do corredor, o Sr. Brunner falou.
— Nada —
murmurou ele. — Meus nervos não andam muito bons desde o solstício de inverno.
— Nem os
meus — disse Grover. — Mas eu
podia ter jurado...
— Volte
para o dormitório — disse-lhe o Sr. Brunner. — Você tem um longo dia de provas amanhã.
— Nem me
lembre.
As luzes se
apagaram na sala do Sr. Brunner.
Aguardei no
escuro pelo que me pareceu uma eternidade.
Por fim, me
esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitório.
Grover
estava deitado na cama, estudando as anotações para a proa de latim como se
estivesse estado lá a noite inteira.
— Ei! —
disse ele, com olhar de sono. — Vai estar preparado para a prova?
Não
respondi.
— Esta com
uma cara horrível. — Ele franziu a testa. — Tudo bem?
— Só estou
cansado.
Virei-me
para que ele não pudesse perceber minha expressão e comecei a me preparar para
dormir.
Não entendi
o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo
tudo.
Mas uma
coisa estava clara: Grover e o Sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas.
Achavam que eu corria algum tipo de perigo.
Na tarde
seguinte, quando estava saindo da prova de latim de três horas, atordoado com
todos os nomes gregos e romanos que tinha escrito errado, o Sr. Brunner me
chamou de volta.
Por um
momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na
noite anterior, mas não parecia ser esse o problema.
— Percy —
disse ele. — Não fique desanimado por deixar Yancy. É... é para o seu bem.
Seu tom era
gentil, mas ainda assim as palavras me deixaram sem graça. Embora ele estivesse
falando baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou
um sorriso falso e, sarcasticamente, fez pequenos movimentos de beijo com
lábios.
Eu
murmurei:
— Está bem,
senhor.
— Quer
dizer... — O Sr. Brunner andou com a cadeira para trás e para frente, como se
não tivesse certeza do que falar. — Este não é o lugar certo para você. Era
apenas uma questão de tempo.
Meus olhos
ardiam.
Ali estava
meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz.
Depois de falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava
destinado a ser expulso.
— Certo —disse
eu, tremendo.
— não, não
— disse o Sr. Brunner. — Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer... é que
você não é normal, Percy. Não é nada ser...
— Obrigado
— soltei. — Muito obrigado, senhor, por me lembrar.
— Percy...
Mas eu já
tinha ido.
No último
dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala.
Os outros
garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as férias. Um
deles ia fazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro de um mês pelo Caribe.
Tinha um que ia para a Disney. Eram delinquentes juvenis como eu, mas
delinquentes juvenis ricos. Os papais
eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era uma joão-ninguém, de uma
família de joões-ninguém.
Eles me
perguntarão o que ia fazer no verão, e eu disse que voltaria para a cidade.
O que não
lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de verão passeando com cachorros ou
vendendo assinaturas de revistas, e passar o tempo livre pensando em onde eu
iria estudar no outono.
— Ah —
disse um dos garotos. — Legal.
Eles
voltaram à conversa como se eu não existisse.
A única
pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as
coisas aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhatan
no mesmo ônibus que eu, então lá estávamos nós, juntos outra vez, indo para a
cidade.
Durante
toda a viagem de ônibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os
outros passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando
saíamos de Yancy, como se esperasse que algo de ruim fosse acontecer. Antes, eu
achava que ele tinha medo de que o provocassem. Mas não havia ninguém para
fazer isso no ônibus.
Finalmente,
não pude mais aguentar.
—
Procurando Benevolentes?
Grover quase
pulou do assento.
— O que...
o que você quer dizer?
Confessei
ter ouvido a conversa dele com o Sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.
O olho de
Grover estremeceu.
— Quanto
você ouviu?
— Ah... não
muito. O que é o prazo final do solstício de verão?
Ele se
esquivou.
— Olhe
Percy... Eu só estava preocupado com você, entende? Quer dizer, tendo
alucinações com professoras de matemática demoníacas...
— Grover...
— E eu
estava dizendo ao Sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou
coisa assim, porque não havia nenhuma pessoa chamada Sra. Doods e...
— Grover,
você mente muito mal mesmo.
As orelhas ficaram
cor-de-rosa.
Do bolso da
camisa, ele pescou um cartão de visitas encardido.
— Pegue
isto, certo? Para o caso de você precisar de mim neste verão.
O cartão
tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos disléxicos,
mas por fim consegui identificar alguma coisa como:
Grover Underwood
Guardião
Colina Meio-Sangue
Long Island, New York
(800) 009-0009
— O que é
Colina Meio…
— Não fale
alto! — ganiu. — É meu, ah... endereço de verão.
Meu coração
desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a família
dele poderia ser tão rica quanto as dos outros em Yancy.
— Certo —
falei, mal-humorado. — Tá, se eu quiser fazer uma visita à sua mansão.
Ele
assentiu.
— Ou... se
você precisar de mim.
— Por que
eu precisaria de você?
Saiu mais
rude do que eu pretendia.
Grover
ficou com a cara toda vermelha.
— Olhe,
Percy, a verdade é que eu... eu tenho, de certo modo, que proteger você.
Olhei
fixamente para ele.
Durante o
ano inteiro eu me meti em brigas para manter os valentões longe dele.
Perdi o
sono temendo que, sem mim, ele fosse apanhar ano que vem. E ali estava Grover
agindo como se fosse ele a me
defender.
— Grover
—disse eu —, do que exatamente você esta me protegendo?
Houve um tremendo barulho de algo sendo
triturado embaixo dos nossos pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus
inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o ônibus
com dificuldade até o acostamento.
Depois de alguns minutos fazendo alguns sons
metálicos no compartimento do motor o motorista anunciou que teríamos de
descer. Grover e eu saímos em fila com todos os outros.
Estávamos em um trecho de estrada rural — um lugar que a gente nem notaria se não tivesse
enguiçado lá. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos e lixo
jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro
pistas de asfalto que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro
pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia
uma banca de frutas como as de antigamente.
As coisas à venda pareciam realmente boas:
caixas transbordando de cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos,
jarros de sidra dentro de uma tina com pés em formas de patas, cheia de gelo.
Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço à
sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.
Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de
suéteres, mas, obviamente, eram meias. A senhora da direita tricotava uma
delas. A da esquerda tricotava a outra. A do meio segurava uma enorme cesta de
lã azul brilhante.
As três mulheres pareciam muito velhas, com o
rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com lenço
branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.
A coisa mais esquisita era que elas pareciam
olhar diretamente para mim.
Encarei Grover para comentar isso e vi que
seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia.
—Grover? —
disse eu. — Ei, cara...
— Diga que
elas não estão olhando para você. Estão, não é?
— Estão.
Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?
— Não tem
graça Percy. Não tem graça nenhuma.
A velha do
meio pegou uma tesoura imensa — dourada e prateada, de lâminas longas, como uma
tosquiadeira. Ouvi Grover tomar fôlego.
— Vamos
entrar no ônibus — ele me disse— Venha.
— O quê? —
disse eu— Lá dentro esta fazendo quinhentos graus.
— Venha! —
Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.
Do outro
lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim, a do meio cortou o fio de lã
e posso jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas de transito. As
duas amigas dela enrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria
aquilo— o Pé Grande ou o Godzila.
Na traseira
do ônibus, o motorista arrancou um grande pedaço de metal fumegante do
compartimento do motor. o ônibus estremeceu e o motor voltou a vida, roncando.
Os
passageiros aplaudiram.
— Tudo em
ordem! — gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com o chapéu. — Todo o mundo
para dentro!
Quando já
estávamos a caminho, comecei a me sentir febril, como se tivesse pego uma
gripe.
Grover não
parecia muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes.
— Grover?
— Sim?
— O que me
diz?
Ele enxugou
a testa com a manga da camisa.
— Percy, o
que você viu lá atrás, na banca de frutas?
— Você quer
dizer, aquelas velhas? O que a com elas, cara? Elas não são como... a Sra. Doods.
Grover disse:
— Só me
diga o que você viu.
— A do meio
pegou a tesoura e cortou o fio.
Ele fechou
os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal da cruz, mas não era
isso. Era outra coisa, algo um tanto... mais antigo.
Ele disse:
— Você a
viu cortar o fio.
— Sim. E
dai? — Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.
— Isso não
esta acontecendo — murmurou Grover. Ele começou a morder o dedão. — Não quero
que seja como na última vez.
— Que última vez?
— Sempre o sétimo ano. Eles nunca passam do
sétimo.
— Grover —
disse eu, porque ele estava realmente começando a me assustar —, do que você
esta falando?
— Deixe que
eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.
Aquele
pareceu um pedido estranho, mas prometi.
— É uma
superstição ou algo assim? — perguntei.
Nenhuma
resposta.
— Grover...
aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?
Ele olhou
para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo de flores que eu
gostaria mais de ter em meu caixão.
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